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Esse ano aconteceu umas coisas ótimas. Como minha carteira de habilitação japonesa. E eu nem sabia dirigir. Agora não vejo minha vida sem carro. E ter comprado o meu carro. Porque aquele que eu usava junto com o Ale não era bem meu. Tá, eu ajudei a pagar, mas nunca senti que era meu. E o meu carro é fofo. E eu blá pro aquecimento global nesse momento. Porque já encarei neve, chuva, sol ardido e tufão de bicicleta e mereço meu carro e tudo mais. Agora fico querendo enfeitar o carro como as japonesas fazem. Com almofadas e odorizadores em vidros que parecem de perfume, usar uma pashmina gigante pra cobrir as pernas no frio e ter um daqueles copos térmicos da Thermos de aço inoxidável, que eu já tinha visto naquele filme com a Bridget Moynahan e pensei: ah, quando eu tiver meu carro eu quero um desse pra tomar café no semáforo parado.

E não troquei de emprego esse ano, coisa que sempre faço. Não que eu GOSTE do meu emprego de peão de fábrica de auto-peças, veja. Mas porque aqui no Japão estabilidade no emprego é estabilidade financeira e eu preciso disso pra poder seguir minha vida fora daqui e fazer aquela faculdade. No Japão inteiro as mulheres ganham 30% a menos do que os homens, não interessa se é o mesmo trabalho. É quase como estar na Idade Média, tô te falando. Mas nessa fábrica o salário é igual pra todo mundo. Mas nem fico “Nossa, que ótimo” com isso. Porque isso é como deveria ser, não é pra achar especial.

Esse ano eu consegui emagrecer 7kg. Mais uns 7kg o ano que vem e me dou por satisfeita. Ainda não consegui superar minha compulsão por doces, mas peguei gosto por exercícios aeróbicos. Ainda falta beber mais água, mas já como salada no almoço e na janta, um pratão de salada colorida – coisa que eu fazia só quando dava vontade.

Surtadas sérias: nenhuma. Surtadas leves: umas 10. Nível de stress diário: 3. Ao contrário de 2006, nem dei de louca esse ano. É aquela pose de yoga fazendo efeito?

Não aprendi a falar francês nem espanhol. Nem aqueles livros didáticos de francês e espanhol eu comprei. Mas todo filme francês que passa naquele canal de cinema estrangeiro/independente eu assisto, mesmo com a legenda em japonês. Porque eu acredito na familiarização da língua, acho importante pro ouvido. Isso vindo de uma pessoa que aprendeu inglês sozinha. E eu já devo ter falado como me chateia. Isso de saber falar muito mais coisas em japonês do que em francês, só por morar aqui.

Livros nem acho que li muitos. Esse ano os livros da Anne Rice ocuparam bastante a minha imaginação. Ano que vem vou voltar para os clássicos que nunca li em inglês: Dickens, Mark Twain, James Joyce. Ouvi muito Cat Power esse ano. Praticamente nem saiu do play, ela. Cozinhei só coisas doces esse ano (pra mim a única coisa que realmente vale a pena perder tempo cozinhando) e agora estou lendo o primeiro livro do Richard Olney, o The French Menu Cookbook – que caso você não saiba, foi o livro responsável por Chefs em todos os lugares a começarem a cozinhar usando os produtos disponíveis em cada uma das estações para compor seus pratos, inclusive a influente Alice Waters; que faz questão não só de usar produtos frescos da estação como também produtos que são locais (e nós começamos a fazer compras em uma cooperativa, onde os produtos são frescos e baratos e ainda apoiamos os agricultores locais). O que hoje é meio óbvio, tipo agora morango é a fruta da estação aqui então morango é introduzido em muitos pratos e sobremesas em vez de, pêssego, por exemplo, que aqui a época é em agosto; esse conceito em 1970, quando o livro foi lançado, foi realmente algo. E demorei pra descobrir o mundo da literatura gastronômica mas agora não olho pra trás.

Boas festas, não dirijam se beber e comam bastante panetone. A gente se vê o ano que vem.

Pausa pro choque. Meu 2007 acabou de ficar pior. A Mary W. acabou o blog. Ela que é mãe do feminismo e avó do Frankestein. Fiquei 1 semana sem entrar na internet por conta do trabalho e da vida e o A Feminista acabou de vez. Por causa da polêmica dos posts copiados e tal, acho. Júlia, eu queria te dizer que o seu blog foi uma das melhores coisas na minha vida esse ano, como eu acho que você enriquece o que o povo chama de blogosfera – e pra quem eu vou perguntar se blogosfera, afinal, é lugar ou não-lugar? Eu queria saber o que você achou da morte da Benazir Bhutto. Porque o Ale me deu um daqueles speeches de como eu não sabia quem ela era e tal. Porque eu deveria me interessar mais, porque sou feminista e a inclusão de uma mulher na política de um país muçulmano deveria me interessar. Mas eu nem sabia. Tipo, nem sinto a repercussão. Igual quando eu disse à ele, o ano passado, que eu nunca tinha visto Thelma&Louise. Ele que acha que eu sou uma feminista meio relapsa e tal. Mas enfim, nem sei se você vai ler isso. Mas se você voltar a escrever em outra URL super me avisa, hein?
* a foto acima é de uma modelo que eu acompanhei com interesse esse ano, a Coco Rocha; no editorial Paris Je T’aime fotografado pelo Steven Meisel para a Vogue de setembro de 2007.